Quinta-Feira, 28 de Dezembro de 2017 - 13:06 (Colaboradores)

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LIVRE

SOSSEGO - Por Max Diniz Cruzeiro

A mente fica serena, e não apresenta obstáculos e nem bloqueios.


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O sossego é uma sensação confortante, em que o regime de urgência ambiental, não demanda prontas respostas reativas numa velocidade que estabeleça conexão com o sistema simpático. O sujeito se sente livre para administrar o seu tempo, no qual o respirar, os batimentos cardíacos, a pressão arterial sofre um condicionamento que suaviza o seu funcionamento por meio da ativação do sistema parassimpático.

A mente fica serena, e não apresenta obstáculos e nem bloqueios. O indivíduo passa a degustar cada vez mais os sentidos. A música tem um tom que não entorpece e nem incomoda os ouvidos. A bebida que se consome tem um sabor que verdadeiramente refresca e desperta boas lembranças e recordações, o tato fica mais sensível. O olfato dota de uma sensibilidade mais profundo que o compromisso da necessidade de se respirar.

É da ordem de uma economia da condição agitante, em que a aflição está ausente, e a paz interior prevalece dentro do aspecto de pulsão de vida.

O sossego faz fluir uma espécie de mansidão, de perenidade, constância de uma situação de repouso, que os pensamentos mesmo ativos não são capazes de romper o equilíbrio de um indivíduo.

É um agir sem preocupação, sem desespero, sem desesperança, sem intempéries. No qual o gesto surge pacificado, sem provocar aspereza, sem agitar o ambiente a produzir ruídos que agridam a tranquilidade.

O sossego é uma prática do que já se mantém de conhecimento, onde nada surge abruptamente e o universo vivido é conhecido.

Mesmo que a curiosidade aflore, ela reflete um comportamento que a homeostase não é quebrada. Uma vez que a homeostase é dinâmica, e os fatos eclodem continuamente o indivíduo não deixa seu comportamento ser influenciado além de sua capacidade de corresponder a necessidade do agir.

É um locomover com calma, consciente, tolerante, observador, em que as diretivas que se constroem o modelo de pensamento é puro da influência do medo, da intranquilidade e de tudo que eleva a necessidade de sair uma frequência cerebral que incomoda.

É um ter tempo para pausas e reflexões, não é uma ausência, e nem uma entropia, é mais próximo de uma acomodação consciente em que os fatos, e coisas podem emergir numa progressão natural de acordo com o tempo.

O sossego é um degustar das coisas através do tempo, sem precisar alterar o ritmo em que as coisas devam fluir para se tornar fato e imagem.

É longe de ser uma expressão do não-tempo, é o fluir de uma expectativa próxima da realidade, que não exalta o indivíduo para que o fato ecloda em seu setting de vida.

É o emprego de uma fala pausada, serena, tranquila em que as coisas vão se processando passo a passo, em gradação, de forma a gerar acordes que não inclinam para o distúrbio.

O sossego é uma degustação de quem verdadeiramente se apaixona pela vida que possui. E passa a fazer uma gestão dos entes abstratos que podem ser utilizados como elementos cognitivos para o usufruto de seu patrimônio intelectual.

O sossego é longe de ser comparado com o ócio, não tem vínculos com a desídia, ou vínculo, em relação a este último, com a sua forma de expressão mais comum, a preguiça.

O sossego permite tangenciar o belo, perceber como verdadeiramente foi concebido, frutificar no ambiente não como objeto, mas como criatura que humaniza sua relação com o mundo.

É o praticar de uma escuta, de um olhar, de uma fala, e de uma observação que a pessoa que está em movimento cotidiano não tem acesso, porque esta última se emprega ritmo para dar conta de suas demandas materiais.

O sossego não colabora para que a transformação ocorra, apenas espera que o tempo providencie que a transformação seja gerada no seu próprio momento de ocorrência. Mas também não é o comodismo. É uma prática de respeitar-se, em termos de memória, de fisiológico, de abstrato e de correspondência corporal.

É o sono justo, sem nenhum indício de incômodo, É o degustar do alimento na temperatura certa que agrada e também não gera incômodo.

É iniciar apenas as causas em que os efeitos gerados dotarão o indivíduo de serenidade e tranquilidade.

É um sentir do aroma do café, ou mesmo degustar a água sem romper o equilíbrio interno, sem fissura, sem pressa; em harmonia, em integridade.

É um exercício que se constrói aos poucos essa integridade dentro da identidade de um indivíduo, de forma conjugada e sistêmica: uma incorporação consciente.

É amar a vida dentro dos parâmetros vitais em que o corpo está imerso. É valorizar cada instante, amiúde do mundo. Longe do contorcer do corpo quando a posição é incômoda do sentar. Mas próximo da postura que suaviza a relação para com o mundo.

É ser belo. O próprio alvo da beleza. É ser puro, o néctar e o mel na medida certa da temperança. É o tempero que não está demais no alimento que se cozinha. É a palavra humanizada para um amigo.

Porque quem planta sossego quando frutifica colherá sossego, mesmo que demore; a paz, a harmonia, a tolerância, a integridade virão como consequências. Vamos tomar um chá? Vamos degustar um café com um biscoito na próxima manhã? Eu mereço, você que chegou até aqui também merece: harmonia.

Fonte: 010 - Max Diniz Cruzeiro/NewsRondonia

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