Quinta-Feira, 23 de Novembro de 2017 - 14:45 (MINHA HISTÓRIA)

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PARAGUAI: DAS MATAS DO PARANÁ À SELVA AMAZÔNICA

Acostumado com as dificuldades das selvas do Paraguai e do Paraná, Benvindo diz não ter sentido muita diferença com o que encontrou em Vilhena. “O sofrimento é o mesmo em todo lugar. Mas eu ainda prefiro o calor daqui ao frio do Sul”.


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por Gustavo Ozeika

 

VILHENA - Por detrás das árvores frutíferas que cercam o humilde casebre de madeira, surge uma figura de baixa estatura, olhar desconfiado e traços fortes. Essas características apontam para uma vida que não poupou dificuldades. Todos na região o conhecem como Paraguai, mas assina Benvindo Dias; um homem de cerca de um metro e meio de altura e 66 anos de idade. De fala baixa, por vezes cansada, o ressabiado senhor estabelece uma conversa, mesmo um tanto quanto contrariado com a visita.

Paraguai é paranaense de nascença, mas foi no país vizinho que ganhou o apelido e a primeira experiência com a derrubada e o corte de madeiras. Na época com 18 anos, há três já tinha saído de sua casa, no município de Goioerê. O segundo filho de nove irmãos nunca mais viu a família. Chegou a Vilhena em 1982 após um encarregado da serraria em que trabalhava, na divisa entre o Brasil e o Paraguai, convidá-lo para a jornada. Desta época o que mais lhe marcou foi o percurso, o qual definiu como “de muito sofrimento”. “Quando a gente é jovem não tem medo de nada. É aventureiro. Eu queria ver como era aqui e vim pra cá”.

Acostumado com as dificuldades das selvas do Paraguai e do Paraná, Benvindo diz não ter sentido muita diferença com o que encontrou em Vilhena. “O sofrimento é o mesmo em todo lugar. Mas eu ainda prefiro o calor daqui ao frio do Sul”.

Na indústria madeireira, Paraguai esteve em todos os postos de trabalho braçais de uma serraria. Nas derrubadas, manuseava a motosserra para cortar árvores gigantescas. Porém, foi nas barracas de lona de acampamentos em meio à selva que conheceu a malária. Já na cidade, trabalhou operando serra-fita, na limpeza de pó-de-serra, retirada de lixo (retalhos de madeira), estocagem e carregamento.

A Serraria Cabixi, uma das maiores, é recorrente durante a conversa. Nela trabalhou da sua abertura até o fechamento. O terreno sobre o qual construiu sua casa, em que mora junto com o único filho, foi comprada da própria serraria. Foi “fichado” em diversas madeireiras em Vilhena e Colorado do Oeste. Mesmo idoso, trabalhou na limpeza de uma área de reflorestamento nos arredores da cidade – atividade que consiste no desbaste de árvores menores, doentes ou com crescimento irregular. Machucou-se na última empreitada e hoje espera uma perícia do INSS para receber o auxílio doença ou a aposentadoria.

Benvindo não acumulou posses após uma vida inteira de trabalho penoso, assim como muitos de seus amigos que ainda residem na Vila Operária, hoje um bairro residencial em Vilhena. Diferente de outros trabalhadores da época, inclusive empresários, não mudou de ramo e acabou engolido pela derrocada da indústria madeireira após a escassez da matéria prima. Mesmo com a vida humilde e difícil, não se arrepende das escolhas que fez. “A minha vida inteira trabalhei com madeira e é o que eu seu fazer. Se fosse preciso, faria tudo de novo, não mudaria nada”.

 

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Fonte: Morcegada.unir.br

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