Segunda-Feira, 16 de Julho de 2018 - 15:16 (Colaboradores)

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O QUE É SLOW LIVING? ENTENDA O CONCEITO

Originado na Itália, na década de 80, o movimento slow surgiu junto com o slow food, em contraposição ao fast food.


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Por Michelle Prazeres

O movimento slow não é apenas um movimento de bem-estar e saúde. Busca uma relação mais ecológica e harmoniosa do ser humano com os recursos humanos e naturais. Prioriza o resgate das relações, a partir da ideia de que devemos conviver com mais afeto e valorizar os vínculos com as pessoas que são importantes para nós.

Originado na Itália, na década de 80, o movimento slow surgiu junto com o slow food, em contraposição ao fast food. O slow food luta pela valorização do ato de comer, pensando no alimento desde a sua produção, passando pelo respeito ao tempo da natureza, pela valorização dos produtores locais e da agricultura natural; pela refeição com tempo de desfrute e comensalidade, na companhia de pessoas significativas e com consciência no ato de se alimentar. Os valores do slow food – respeito ao tempo da natureza, valorização do local e do pequeno e valorização das relações – foram incorporados por outros setores da vida e da sociedade, que também perceberam o movimento que alguns estudiosos chamam de “aceleração social do tempo”.  

Essa é uma pergunta que costumo ouvir sempre que converso com alguém sobre os contratos de tempo na sociedade e sobre a consciência temporal.

“Contratos de tempo” é uma expressão que uso para falar dos combinados que temos em relação ao tempo na sociedade e que não costumamos problematizar. Por exemplo, por que temos que responder uma mensagem assim que ela chega? Quem criou esta convenção? Por que não ousamos confrontá-la, criando outros contratos de tempo?

Já “consciência temporal” é a ideia de que cada um pode escolher como usar o seu tempo a partir de um processo de tomada de consciência e autonomia em relação aos contratos de tempo. Esta atitude pode transformar profundamente as relações que temos com outras pessoas e com o planeta.

Antes de mais nada, é preciso entender que desacelerar não é necessariamente ser devagar ou preguiçoso. Desacelerar é parar e respirar. Pensar quando a velocidade e a correria fazem sentido e quando não fazem e você corre, simplesmente, porque isso é o considerado “normal”.

Quantas vezes você já se pegou com pressa, ansioso e dando conta de mil tarefas e com a sensação de que mal parou para pensar no que estava fazendo? Ou de que não esteve presente, com plenitude, em nada que realizou?

Quantas vezes você já se pegou com pressa, ansioso e dando conta de mil tarefas e com a sensação de que mal parou para pensar no que estava fazendo? Ou de que não esteve presente, com plenitude, em nada que realizou?

Desacelerar é justamente estar presente, com plenitude, disponibilidade e atenção ao que se faz. A consciência temporal é a atitude de se perguntar como vai a sua relação com o tempo. Como você tem usado seu tempo. E se tem usado para suas prioridades internas ou para urgências externas. É claro que precisamos reconhecer que este é um enorme desafio, especialmente, para quem vive em grandes cidades. Mas ele é possível. E pode trazer benefícios enormes para seu bem-estar e a sua saúde.

Desacelerar, portanto, não é tarefa simples. Passa por autoconhecimento, consciência da relação com o tempo, escolhas relacionadas a suas prioridades e muita energia para sustentar opções que vão na contracorrente deste mundo que nos acelera cotidianamente. Mas, acredite, vale a pena!

São seis movimentos muito simples, mas que mexem com a percepção do tempo na nossa vida e trazem efeitos sobre a forma como nos relacionamos com ele e com as escolhas relacionadas ao uso dele.

1. Cuide das relações importantes para você

Quem são as pessoas mais importantes na sua vida hoje? Como elas estão presentes no seu cotidiano? Você esteve presente de fato, em conversas profundas ou em silêncios reveladores, mas em encontros de troca de afeto e plenitude? A convivência afetiva é uma forma de humanizar as relações e desacelerar. A escuta atenta, a atenção plena e a presença são fundamentais para um caminhar mais lento.

2. Perceba as suas escolhas de tempo

Como você usa seu tempo? Como distribui suas 24 horas de cada dia e os dias da semana em relação ao que gostaria e ao que deveria fazer? O que ocupa mais tempo em sua vida hoje? O que você gostaria que ocupasse mais? Perceba as suas escolhas de tempo e tome as rédeas destas escolhas para você. Pergunte(-se) quando a velocidade faz sentido e quando não faz.

Não estamos falando de gestão do tempo. Estamos falando de consciência e autonomia temporal. Basicamente, trata-se de conhecer as suas escolhas de tempo e buscar transformar o que te incomoda (claro que entendemos que algumas escolhas são possíveis e outras não, mas percebê-las já é um passo importante para compreender onde é possível mudar). Às vezes a transformação está justamente em um movimento interno, de percepção sobre suas escolhas de tempo. A velocidade é violência e a pressa é uma dinâmica social que elege a agilidade como coisa positiva. Muitas escolhas, portanto, estão submetidas a convenções sociais. Mas a consciência é transformadora e é o primeiro passo para conquistar a autonomia.

3. Fale sobre o tempo da vida e das coisas

Quantas vezes você já respondeu uma mensagem só para não parecer lento? Quantas vezes esta reação rápida não necessariamente atendeu à demanda do seu interlocutor, mas você reagiu mesmo assim, apenas para dar conta da velocidade como demanda colocada e velada? Precisamos falar sobre o tempo. E não apenas na perspectiva da falta de tempo, da pressa, da indisponibilidade, de que precisamos de mais tempo. Precisamos falar sobre os contratos de tempo. Quando mudamos combinados e formas de lidar com o tempo, estamos promovendo pequenas grandes transformações. Em vez de responder àquela mensagem rapidamente e sem sentido, por exemplo, responda dizendo que vai responder com calma assim que puder cuidar dela com a atenção que ela merece. Experimente problematizar prazos e atrasos. Falar sobre o tempo é importante para construirmos novas relações com o tempo.

4. Faça uma coisa de cada vez

Vivemos na sociedade do desempenho, que valoriza o multitasking (a capacidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo). Na prática, estamos nos revezando de tarefa em tarefa, sendo inefetivos. Perdemos coisas e esquecemos de coisas importantes. Atendemos em ritmo frenético a urgências e não conseguimos dar conta do que são as nossas próprias prioridades. Muitas vezes, pode ser melhor fazer uma coisa por vez, sequencialmente e com atenção plena.

5. Fique mais tempo offline

Você precisa mesmo olhar aquela mensagem assim que o aparelho apita? Precisa mesmo estar online tantas horas por dia? Ou precisa mesmo conversar por programas de mensagem enquanto almoça? As tecnologias são “ladrões de tempo” na vida contemporânea. Muitas vezes, o “fluir” nas redes sociais, por exemplo, está relacionado com os poucos momentos de entretenimento a que você tem direito no seu dia. Não queremos que você os abandone. Mas pense que você poderia administrar melhor a sua relação com os aparatos tecnológicos e as telas em geral e garantir mais tempo de presença e atenção plena, seja com você mesmo, seja com outras pessoas e relações importantes para você.

6. Faça pausas

O mundo te pressiona a correr. Parar é um grande esforço. É difícil encontrar na sua agenda apertada e cheia de compromissos tempo para fazer um trecho do seu deslocamento diário a pé, contemplar a cidade, a rua, as pessoas; um tempo para refletir; um tempo para escutar alguém; para ouvir uma música; para almoçar com calma. Imagine um tempo para não fazer nada! Um tempo para não (se) ocupar?! Este tempo é ainda mais raro! Permita-se este tempo sem culpa. Tenha em mente que a pausa não deve servir apenas para recobrar o fôlego para voltar ao trabalho. A pausa é para você. Desfrute.

Fonte: Michelle Prazeres

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