Sexta-Feira, 09 de Fevereiro de 2018 - 08:07 (Colaboradores)

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LIVRE

O FILHO PRÓDIGO, O PAI E EU

O filho mais jovem “poucos dias depois, juntando seus haveres foi para uma terra distante”.


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Sem dúvidas uma das histórias mais belas e conhecidas da bíblia. Com o tempo ganhou um título que não destacou a intenção principal pretendida por seu autor, que não era destacar um filho irresponsável, mas do incondicional amor de um pai. Convido o leitor a me acompanhar em algumas breves reflexões quase sempre despercebidas nas entrelinhas desta inexaurível parábola.

Logo no início, ao pedir sua parte da herança, o filho mais jovem comete uma ofensa gravíssima. Os estudiosos concluem que o pedido chega às raias do desejo pela morte do pai, o modo como ele trata seu pai é como se já o considerasse morto, denunciando um profundo hiato no relacionamento entre pai e filho, torna ainda mais notável que o pai tenha concedido. No ambiente do oriente médio, esperar-se-ia que o pai explodisse em ira e o disciplinasse severamente. O rapaz de fato, já está perdido.

Ainda nessa primeira parte espera-se duas atitudes do filho mais velho: primeiro que recuse a sua parte no quinhão em voz alta com sonoras afirmações de lealdade infinitas ao pai, como protesto à impensável insolência cometida por seu irmão, conforme o costume daquele povo. Pelo contrário, aceita com conveniente quietude e desta forma também se beneficia; em segundo, espera-se que levante-se como conciliador entre seu pai e seu irmão, seu silêncio denota um caráter e intenções duvidosos.

A venda de uma propriedade no oriente médio arrastava-se por meses a fio – afinal, a terra era uma propriedade de muito valor não apenas financeiro, mas altamente ligada à família -, o jovem fê-lo rapidamente por força do conflito agravado dentro de casa, fruto de sua ofensa.

No tal país distante esbanjou seus recursos prodigosamente e para piorar a sua situação houve grande fome, levando-o ao caótico estado de querer matar a sua fome com alfarrobeira selvagem, um tipo de arbusto que os porcos cavucavam para comer-lhes as bagas. Era muito amarga e sem valor nutritivo. A pincelada final em sua tragédia é que “ninguém lhe dava nada”, ou seja, nem a mendicância dava resultados!

Chegamos ao seu arrependimento, e precisamos examinar mais cuidadosamente esse ato. Vejamos:

O filho pródigo não chega a pedir desculpas, então de quê se arrepende? Sua motivação está claríssima e não passa nem perto do remorso dos pecados por ele cometido, apenas a constatação do fim de seus recursos e a possibilidade de resolver seu problema alimentar: “Quantos empregados de meu pai têm pão com fartura e eu aqui morrendo de fome...” É bem verdade que que planejou confessar seu pecado, pedir perdão e tornar-se empregado de seu pai. Entretanto ao iniciar sua confissão, foi interrompido pelos afagos do pai, e ao dar-se conta de que sua situação seria melhor do que planejara, silencia abandonando o discurso de “arrependimento”. Ao aceitar o “pacote” de benécias oferecido pelo pai, o filho mais jovem traz à tona a superficialidade de sua contrição. Um verdadeiro arrependido jamais mudaria seu discurso por causa das torturas de sua consciência. É exatamente nesse ponto que o filho pródigo que ofendeu ao máximo, fracassou em tudo, envergonhou o nome da família, e finalmente é inundado pelo amor do pai. O que pretendia ser servo, não se achava mais digno de ser chamado de filho, é vencido pela graça de um pai acolhedor. O pai sabia que o mundo havia maltratado seu amado, mas que agora nenhum mal o tocaria sob seus cuidados. A casa do pai além de ser um lugar de perdão, é de cura das mazelas que se sofre no mundo fora dela. É um reduto de aceitação e amor.

Na cena final, o irmão mais velho reaparece com ares de suspeita por causa da festividade que de longe se ouvia. Um filho que tenha um relacionamento normal com sua família, entraria imediatamente tanto para descobrir o que estava acontecendo quanto para se alegrar. Este, no entanto, recusa-se a entrar. O costume requer sua presença. Em banquetes, o filho mais velho tinha responsabilidade semi-oficial. Esperava-se que ele passeasse entre os convivas cumprimentando-os, assegurando-se de que todos estivessem bem servidos. O questionamento sobre o retorno de seu irmão deveria acontecer depois, em momento íntimo da família. Mas ele preferiu humilhar o seu pai publicamente, discutindo enquanto os hóspedes ainda estão presentes.

Os costumes do Oriente Médio, e a elevada consideração que lá se dá à autoridade paterna, fazem com que os atos do filho mais velho sejam extremamente insultuosos. Sem dúvidas em qualquer cultura é uma grave ofensa recusar-se publicamente a participar de um banquete oferecido pelo pai, trazendo assim à tona uma discórdia familiar diante do público. O filho mais novo perdeu-se em um país distante, o mais velho moralista, apontando os pecados de seu irmão e ofendendo seu pai, perdeu-se na amargura de seu coração.

Em ambos os casos, o coração ferido do pai transborda a graça da aceitação e o clamor pela reconciliação no amor incondicional oferecido. Ao analisar um pouco mais cuidadosamente essa estória, tento imaginar qual dos dois filhos eu sou. Seja qual for, sinto um misto de muita vergonha e muita alegria. Na parábola em questão, Jesus não a conclui. Não sabemos se o filho mais velho entrou em casa e participou do banquete ou não. Não foi um descuido do narrador, ele fê-lo intencionalmente, pois a resposta ao convite paterno está estendido, e cabe a cada um de nós, com nossas atitudes, responder ao apaixonado Pai.

Jefrson Sartori 

Fonte: Jefrson Sartori / News Rondônia

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