Segunda-Feira, 12 de Fevereiro de 2018 - 10:59 (MINHA HISTÓRIA)

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AOS 60 ANOS, MÃE FAZ FACULDADE PARA REALIZAR SONHO DO FILHO QUE MORREU

Leonardo queria ser promotor e ajudar pessoas com deficiência. Faleceu um dia antes de começar o curso. Agora, é a mãe quem estuda direito


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Quando Luzinete Pereira chegou ao primeiro dia de aula na faculdade, colegas acharam que ela era a professora. Com 57 anos, aquela poderia também ser a mãe de qualquer um dos jovens naquelas fileiras. O filho dela, porém, não estava entre eles. Leonardo Pereira morreu aos 17 anos, um dia antes de começar a cursar direito naquele mesmo lugar. Era por ele que Luzinete estava ali.

Leonardo tinha amiotrofia espinhal, uma doença genética que atrofia os músculos, relacionada a problemas no cromossomo 5. O sinais apareceram aos 6 anos e médicos disseram que ele viveria até os 7.

Rapidamente, o menino perdeu os movimentos das pernas e dos braços, mas resistiu por 10 anos a mais do que a previsão. Não foi o suficiente, entretanto, para que ele realizasse seu maior sonho: ser promotor de Justiça para atuar em favor de outras pessoas com deficiência. Leo, como era carinhosamente chamado, morreu em 2014 após paradas cardíacas.

No ano seguinte, Luzinete viu a família se desfazer totalmente ao ficar viúva. Após aprender a conviver com o luto, decidiu manter vivo o sonho do filho e encontrar um novo sentido para sua caminhada. Matriculou-se na faculdade de direito, após 40 anos longe da escola, para ser advogada.

O filho de Luzinete passou quase toda a vida em uma cadeira de rodas, o que não o impedia de ser um aluno dedicado, um dos mais queridos no Centro Educacional Darcy Ribeiro, no Paranoá.

Em 2005, Leonardo teve uma parte do pulmão retirada para diminuir a incidência de doenças. Em 2008, devido a uma infecção generalizada, o rapaz morou durante seis meses no hospital.

Arquivo Pessoal

 

Em meio aos problemas de saúde, Leonardo não se deixou levar pelo desânimo. Estudou durante as internações. Não reprovou nenhuma vez e só tinha notas maiores do que 7 no boletim. Era igualmente bom em português e matemática. E sobreviveu às piores expectativas. “Ele nunca foi um garoto amargurado. Me dizia todos os dias o quanto me amava e cuidava de mim. Era um menino fora do comum”, lembra Luzinete.

Ele foi protagonista de uma reportagem, em 2011, quando colegas de escola fizeram campanha para comprar-lhe uma cadeira de rodas motorizada. A mãe de Leo deixou de trabalhar para cuidar do filho. O pai era motorista de ônibus. O salário só dava para o aluguel e a comida. A casa simples que dividiam no Paranoá sequer tinha vidros nas janelas. A situação difícil e o carisma do menino atraíram a solidariedade de muita gente.


Luzinete Pereira faz estágio no STJ desde 2017. “Quero advogar para quem não tem como pagar”, diz - foto Bruno Pimentel

Nessa época, várias pessoas influentes do meio jurídico procuraram a família para conhecê-la e ajudar Leonardo. Os novos amigos prometeram pagar a faculdade, fizeram melhorias na casa e uma concessionária doou um carro para que ele pudesse ir à escola com mais conforto.

Uma mulher que prefere não ter o nome citado havia se comprometido a arcar com as mensalidades do curso de direito para Leo. Quando Luzinete avisou que ela daria seguimento ao plano, após ele falecer, essa pessoa se prontificou a ajudá-la. “Ela conseguiu uma bolsa de 100% na Unip, onde o Leo tinha passado no vestibular e estudaria. Também me doou todos os livros do curso e eu comecei a estudar”, relata Luzinete.


“A vida me deu limões amargos, mas fiz deles uma boa limonada”, afirma Luzinete

A futura advogada se apaixonou pelas lições sobre as leis. Lembrou-se de quando precisou recorrer ao Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT) para que Leo tivesse uma vaga de UTI. “Não sabíamos nada sobre nossos direitos. Aprendi muito correndo atrás das coisas para o meu filho e com outras famílias, que conhecemos pelo caminho, na mesma situação”, diz a universitária.

Atualmente, ela cursa o sétimo semestre e é estagiária no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde acompanha julgamentos e cuida da documentação de processos. Seguiu o exemplo de Leo e tornou-se uma estudante aplicada.

“Descobri uma paixão. Vejo alguns jovens que não levam os estudos a sério, eu me aplico em dobro. O Leo me apontou o caminho e hoje vejo que tudo tinha esse propósito”, afirma.

Fonte: metropoles

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