Sabado, 21 de Abril de 2018 - 09:59 (Colaboradores)

L
LIVRE

A CARTA QUE NUNCA ENVIEI - POR JEFRSON SARTORI

Estou muito feliz em uma determinada área da minha vida, frustrado em uma outra, e confuso noutra ainda.


Imprimir página

“Domingo, manhã de domingo, e eu preguiçosamente reclinado numa rede na chácara de uma tia. Choveu a noite, a terra e as árvores onde a rede está armada estão úmidas e para ser sincero, o tempo ainda está nublado. O vento leve e constante produz nas folhas das plantas um desajustado balé e ao tocar meu rosto sussurra ao meu ouvido que o tempo passa com ele. Este sentimento de fugacidade do tempo é reforçado pela cena que assisto agora: Trata-se de meu tio, sentado numa cadeira na área de sua casa simples, seus cabelos grisalhos pelo muito passar dos ventos, e uma serenidade quase sempre monossilábica. Brinca com uma de suas netas. O problema, meu amor, é que o contínuo movimento de vaivém de sua mão direita causado pelo Mal de Parkinson, denuncia que a ampulheta da vida dele contém pouca areia.

Estou muito feliz em uma determinada área da minha vida, frustrado em uma outra, e confuso noutra ainda. É curioso notar que não somos um bloco inteiro de sentimentos. Na verdade, temos sentimentos fracionados em áreas distintas, como acontecia nas disciplinas da escola. Eu por exemplo sempre estava feliz em Língua Portuguesa e Literatura, indiferente em Artes e Religião, tranquilo em História e Geografia, perdido e confuso em Biologia e Física, finalmente querendo suicídio em Matemática. Quando alguém me diz: ‘Estou feliz!’ Acredito que alguma área da vida dessa pessoa que ela valoriza muito, está sem nenhum problema, e que os problemas que a assolam estão em áreas de sua vida que não lhe causam preocupações maiores.

Lembrei, com afetuosa saudade e nostalgia, de algumas de nossas conversas. Em todas elas a tua beleza insistia em continuar a abrir caminho, o sorriso rútilo com o qual me abençoavas obrigava teus olhos refugiados em densas orbitas, a esmiuçarem-se, e as maçãs de teu rosto revigoravam a bela forma. Na alegria de nossas conversas, os assuntos sempre nasceram como tábuas de salvação a qual era possível se agarrar em meio a esse mar de (in)certezas. Eventualmente, você me perguntava uma coisa com os lábios e outra com os olhos e eu tomava rumo com respostas mais inverossímeis, que serviam de paraquedas.

Ah!, mas o perfeccionista que carrego dentro de mim me sopra que você é uma mulher rara, sabendo todas as coisas, já tendo lidado com gente de todos vícios, conhecendo muitas ideias. Por isso me encanto em estar a seu lado conversando. És de um seleto e raro grupo de mulheres que vejo como nobres. Nem me diga que essas meninas de hoje em dia serão ainda mais nobres. Não sei. Conheço algumas, são diferentes; oscilando entre inquietudes frívolas e melancolias vulgares. Começam a viver mais cedo, em todo o caso me dão a desconfiada impressão de que provam de tudo e não sabem de nada. É a mocidade com a pele fresca e os olhos limpos, que avança descuidosa, como aquela nuvem distraída e muito branca que vejo agora levada pelo vendo, e contente no azul, sem saber aonde vai...

Acabei saindo do tema no parágrafo anterior, peço desculpas, hoje as lembranças me fluem em jorros. Sempre há alguém por quem pensamos no fundo de nossos corações: ‘Como seria se tivéssemos ficado juntos?’Todos somos um cemitério de lembranças, não somos nós, é a vida quem as mata, mas carregamos seus cadáveres secos. Talvez seja isso que nos envelheça, o que dá uma contrariedade vazia a um momento de solidão, uma vaga tristeza ao dormir. 

Os idiotas conservam-se melhor fisicamente porque não são corroídos pela ansiedade existencial à qual as pessoas mais ou menos lúcidas se veem submetidas. Como aqueles pesadelos que a gente tem e no começo não parecem pesadelos, e passam a sê-lo precisamente quando pulam do limite da razão e da lógica e se tornam inquietantes. Eu mesmo sou muito inquietante, agora, nessa fase da minha vida parece que... Mas basta! Por que maldita inclinação hei eu de estar sempre a explicar meus desmanchos internos que a ninguém interessam? Voltemos!

Algumas vezes encontro sua lembrança nalguma parte da cidade. O brilho de seus cabelos ao sol,o cheiro de sua pele recém lavada me distraem. Por um instante deteve em mim seus compenetrados olhos. Aqueles olhos não me diziam que estavam com pena ou remorso, apenas me davam coragem; eram limpos, amigos e eram tal belos, eram fascinantes! Era a vida, a úmida luz da vida, a bela e ansiosa vida. Subitamente sinto viver um momento antigo, como se a vida tivesse voltado um instante –ouço meu nome e o bater a sola de sapatos na calçada ao meu lado. São lembranças carregadas de prazer e angústias. Doem-me. Paro um instante para deixar o momento antigo passar por meus ombros, levado pela brisa e ir embora. Muito bem observou Clarice Lispector: ‘A realidade é uma só, mas a gente gosta mesmo é de inventar várias.’

Deixemos esse assunto. Detesto falar de mim. Prefiro ser dono de meu silêncio por um misto de bom senso e covardia, para não expor uma versão edulcorada, dietética, digerível do que sou. Por isso, de certo modo, sou fugitivo de mim mesmo. O pior de ser fugitivo é ter deixado de sentir quem eu fui. Será que todos os fugitivos são maltratados por essa nostalgia do passado? O que importa dizer a meu respeito é que eu só queria que você soubesse que aquela alegria ainda está comigo, que minha ternura não ficou na estrada...

Sinto a sua falta, sempre que estamos longe penso em tantos assuntos importantes que ‘eu não posso deixar de falar em hipótese alguma’. Bem, sempre esqueço. Talvez sejam importantes apenas em minha mente, pode ser que se eu disser venha ser algo patético, como um quadro bobo pintado por Van Gogh apenas para pagar sua hospedagem em uma pequena pensão em Arles, interior da França. Nossas conversas jamais seguiram um curso linear. Tratávamos de tantos assuntos e mudávamos de assunto e opinião sem nenhuma ordem aparente.

Termino e releio essa carta sem estabelecer claramente nela um propósito. Há uma irregularidade de ideias sem nenhuma ordem no que escrevi aqui. Toda carta espera uma resposta.

Com amor,”

Termino de ler, dobro-a cuidadosamente nas cicatrizes que as dobras anteriores deixaram no papel, penso em incinerá-la. Pondero, cuido que uma carta que tenha sobrevivido a tantas mudanças mereça ser recompensada com a posteridade. Também penso que sua existência hoje não faz mais sentido (?!), e que não devo me ater assim a esse amontoado de papel com dobras simétricas e sentimentos assimétricos. Não sei, decido dormir, tomara que não tenha pesadelos.

Jefrson SartoriAbril, 2018

Fonte: Jefrson Sartori / News Rondônia

Noticias relacionadas

Comentários

Veja também

Outras notícias + mais notícias